No dia 30 de outubro de 1910, casualmente 10 anos antes da primeira publicação da revista Nós, nascia em Ferrol Ricardo Carvalho Calero, uma figura revolucionária e fundamental da história recente do nosso país. A sua importância como político, escritor e filólogo é tão grande como a mala fortuna que acompanha a sua memória, e se 2020 poderia ter sido a oportunidade para reivindicar Carvalho –com v e lh, mal que pese a muitos–, o azar quis que o seu ano fosse também um dos que prestássemos ainda menos atenção à cultura e às nossas letras. Mas não é tudo por mala sorte, o esquecimento em que seguirá sumido Carvalho Calero também está fomentado pela pouca vontade da Real Academia Galega e do resto de instituições oficialistas, que continuam a ver neste ferrolão uma figura controversa que é melhor evitar.

Habitualmente, reconhecemos Carvalho Calero como um dos impulsores do reintegracionismo e o criador duma proposta ortográfica que colocaria de novo o galego no tronco luso-brasileiro, algo que antes que ele já defenderam intelectuais como Murguía, Vilar Ponte ou Castelao. A sua luta, que muitas pessoas ainda hoje sinalam como anti-galega, tinha as suas bases não só no seu conhecimento da nossa língua, senão também no seu pensamento nacionalista. Carvalho, primeiro Catedrático de Língua e Literatura Galegas, procurava uma língua viva e própria, livre de castelanismos e enriquecida pelo léxico dos nossos mais velhos e grandes poetas.

Contudo, mentres que a defesa do reintegracionismo só apareceu na sua vida a partir dos anos 70, o seu interesse pela política e a cultura nacionais estiveram presentes desde novo, quando começa a estudar Filosofia e Letras na Universidade de Santiago de Compostela, carreira que abandonaria temporariamente para entrar em Direito. Estes anos, que quedam plasmados na primeira parte da sua obra literária mais reconhecida, Scórpio, levaram-no a ingressar em 1927 no Seminário de Estudos Galegos e a co-fundar só três anos mais tarde o Partido Galeguista. Durante este período de tempo, de grande atividade literária, participou em várias revistas, entre as que destaca Nós.

Contudo, mentres que a defesa do reintegracionismo só apareceu na sua vida a partir dos anos 70, o seu interesse pela política e a cultura nacionais estiveram presentes desde novo, quando começa a estudar Filosofia e Letras na Universidade de Santiago de Compostela, carreira que abandonaria temporariamente para entrar em Direito. Estes anos, que quedam plasmados na primeira parte da sua obra literária mais reconhecida, Scórpio, levaram-no a ingressar em 1927 no Seminário de Estudos Galegos e a co-fundar só três anos mais tarde o Partido Galeguista. Durante este período de tempo, de grande atividade literária, participou em várias revistas, entre as que destaca Nós.

No seu trabalho político, destaca a sua participação na Fronte Popular e a redação, junto com Luís Tobio dentro do Seminário de Estudos Galegos, dum anteprojeto de Estatuto galego, cujo primeiro artigo exclamava «A Galiza é un Estado libre dentro da República Federal Española».

Rematado o seu tempo de estudante em Santiago, Carvalho retoma a carreira de Filosofia e Letras, casa e começa a trabalhar em Ferrol. Mas um breve período de tempo em Madrid coincidiria com o início da Guerra Civil, o que o leva a entrar no bando republicano, participar na defesa desta cidade e lutar noutros territórios como Valência ou Andaluzia. Ao perder a guerra, por mor da sua militância galeguista, Carvalho é condenado a doze anos e reclusão em Jaén. No cárcere, como indica Montero Santalha, «podia escrever, mas a censura não permitia usar outra língua que o castelhano».

A partir dos anos 40 Carvalho fica livre e volve a Ferrol, onde escreveria numerosas obras teatrais, poemas e o romance A gente da Barreira; uma novela sobre a crise da fidalguia que foi, ademais, a primeira da pós-guerra escrita em galego. A sua atividade cultural e educativa continuaria a partir de 1950 em Lugo, devido à fundação do colégio Fingoi, do que foi diretor durante 15 anos. Neste centro, de vocação galeguista, haveriam de formar-se estudantes e mais docentes, como Bernardino Granha, Mêndez Ferrim ou Arcádio Lôpez Casanova. Posteriormente, já em Santiago de Compostela, seria professor do instituto Rosalia de Castro e da Universidade de Santiago de Compostela, da que chegaria a converter-se no primeiro catedrático de Língua e Literatura Galega em 1972

Em 1954, Carvalho defenderia a sua tese de doutoramento em Madrid e escreveria uma das suas obras mais fundamentais, Historia da literatura galega contemporánea, que não seria publicada até 1963. Em 1957 ingressaria também na Real Academia Galega.

A sua atividade nas décadas de 1960 e 1970 haveria de centrar-se na língua, publicando a Gramática elemental del gallego común ou as Normas Ortográficas e Morfológicas; textos que ainda não confluíram coa vertente portuguesa do nosso idioma. Em 1979, quando a Junta pré-autonómica precisa dumas normas ortográficas para a língua, escolhe a Carvalho para dirigir uma comissão da que sairia uma normativa que hoje até poderíamos chamar binormativista, mas que teria pouco percorrido devido às ideias pós-franquistas da Junta, que não podiam permitir que o galego fosse escrito como uma língua que não fosse o castelhano.

Estes debates e lutas acabariam por relegar Carvalho ao ostracismo e à incompreensão, que contrastariam com as numerosas homenagens recebidas na década de 1980, entre a que salientam o nomeamento de membro de honra por parte da Asociación de Escritores en Lingua Galega e da Associação Galega da Língua (AGAL), com a que colaboraria em numerosas ocasiões.

Carvalho Calero e Manuel María no I Congreso da AGAL.
Fotografía de Martinho Montero

Durante os últimos anos da sua vida, antes da sua morte o dia 25 de março de 1990, Carvalho dedicou o seu tempo à literatura e à defesa e estudo da nossa língua. De 1981 é a publicação Sobre a nossa língua, onde escreve “O galego ou é galego-português ou é galego-castelam”.

No nacionalismo galego não devemos deixar de render homenagem a Carvalho Calero, assim como achegar-nos e reflexionar mais sobre as suas propostas para a nossa língua, que poderiam ajudar a revitalizá-la e afastá-la do atual processo de dialetização, que a achega cada vez mais a uma língua completamente diferente, o castelhano. Carvalho é uma peça fundamental para entender o que hoje significa ser galegas e defender o nosso idioma.

Desde Galiza Nova, convidamos a achegar-se a Carvalho através das publicações em torno a ele e as entrevistas que em maio publicamos a Valentim Fagim, Carlos Garrido, Eduardo Maragoto e Arturo Casas. Ao mesmo tempo, defendemos de novo a necessidade de estender a celebração das nossas Letras a 2021. Não permitamos que o vírus conservador e neoliberal que ataca desde há anos as nossas instituições nos faça esquecer a importância das grandes figuras da nossa cultura e a nossa política.

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