Galiza ardeu em abril. Nom foi um episódio isolado nem um simples adianto da campanha de incêndios: foi a confirmaçom de que o país entra, mais um ano, no mesmo ciclo de sempre. O que já vimos o verám passado repetiu-se agora, antes de tempo, deixando claro que nada essencial mudou. E quando nada muda, o resultado repete-se. O que aconteceu nom se explica por azar nem por fenómenos excecionais. Responde a umha combinaçom cada vez mais perigosa: um território progressivamente abandonado, um modelo produtivo que deixou de estruturar o meio rural e umha administraçom que só atua quando o problema já está em riba. O resultado é um país mais vulnerável, onde o fogo nom precisa de condiçons extremas para aparecer, apenas continuidade na inércia.
O Partido Popular, à frente da Xunta da Galiza desde há 17 anos, consolidou este modelo. Um modelo que nom evita incêndios, que nom reduz riscos e que nom transforma o território. Um modelo que se limita a resistir campanha trás campanha, acumulando problemas que acabam por explodir quando chegam as condiçons propícias. O PLADIGA é a expressom mais clara desta forma de atuar. Anuncia-se como eixo da estratégia, mas funciona como umha resposta tardia e insuficiente. Nom organiza o território, nom muda dinâmicas, nom previne. Limita-se a estruturar a reacçom quando o lume já está em marcha. E assim, cada ano, o país chega tarde a um problema que se conhece de sobra.
Entretanto, a realidade no terreno é outra. Há continuidade do abandono. Grandes áreas sem gestom, núcleos rurais rodeados de biomassa, perda constante de actividade agrária e florestal que antes atuava como barreira natural. O território está cada vez mais exposto, e isso traduz-se diretamente em mais facilidade para que o lume avance.
A este cenário soma-se a expansom do eucalipto, consolidada nas últimas décadas como parte central dum modelo florestal orientado à rendibilidade a curto prazo e nom à sustentabilidade do território. A eucaliptizaçom incrementa a carga de combustível, favorece a continuidade do monte e reduz a diversidade de usos e espécies, eliminando barreiras naturais frente ao lume. Nom é só umha questom ambiental, senom estrutural: um território dominado por monocultivos inflamáveis é um território mais exposto, mais difícil de gerir e mais vulnerável a incêndios de grande intensidade. Sem umha política clara de ordenaçom florestal que limite esta expansom e aposte por um mosaico mais diverso e funcional, qualquer estratégia de prevençom ficará incompleta.
Mas há outro elemento que agrava ainda mais este cenário: a precarizaçom dos serviços de emergência. Brigadas e bombeiros florestais trabalham frequentemente com contratos temporais, instabilidade laboral e meios insuficientes. Nom se trata só de condiçons de trabalho, mas também de eficácia: um dispositivo que muda constantemente de pessoal, que nom tem continuidade nem estabilidade, é um dispositivo mais débil e menos preparado para responder a situaçons extremas. O sistema de extinçom funciona demasiadas vezes ao limite, improvisando onde deveria haver planificaçom, chegando tarde onde deveria haver antecipaçom. E isto nom é responsabilidade de quem combate o lume, senóm de quem desenha e mantém o modelo.
O caso de Oímbra nom admite maquillagens. O que aconteceu ali nom pode ser despachado como umha circunstância adversa, foi a demonstraçom de até que ponto se deixou degradar a gestom do território e dos próprios dispositivos públicos. A Xunta da Galiza tem que assumir a sua responsabilidade na catástrofe, porque o incendio nom se explica sem essa cadeia de decisons e omissons. Nom há escapatória possível: há culpáveis e há negligência.
Mesmo nas primeiras análises ficou em evidência umha descoordenaçom grave e umha incapacidade de antecipar situaçons de risco que já eram conhecidas. Nom se trata só de como se respondeu, senóm de como se permitiu que o cenário existisse. Em zonas do interior como Oímbra, a expansom do pinheiro —espécie pirófita e amplamente estendida, também como invasora— foi configurando umha superfície contínua, homogénea e altamente inflamável. Nom é um detalhe técnico, é o resultado direto dumha orientaçom política que favorece este tipo de aproveitamento sem impor limites nem garantir gestom.
Cando essa realidade estrutural coincide com falhas operativas, o resultado deixa de ser um risco para se converter numha certeza. Oímbra expom com claridade incómoda algo que se tenta evitar no discurso oficial: que a negligência institucional nom é abstrata, tem efeitos materiais e medíveis, e que as responsabilidades políticas derivadas dela nom podem continuar sem consequências. Nom foi umha excepçom que obrigue a corrigir o sistema, foi a prova de como funciona.
O que aconteceu em abril nom deixa margem para interpretaçons optimistas. Foi um antecipo claro do que pode vir. Se com condiçons ainda afastadas do pico do verám já se produziram incêndios, o cenário para os próximos meses é evidente: mais intensidade, mais rapidez e maior dificuldade para controlar os lumes. E isto tem consequências que vam muito além da superfície queimada. Fala-se de segurança das pessoas, de futuro do meio rural, de perda de recursos e de deterioraçom ambiental. Fala-se, em definitiva, de que país se está a construir, ou a deixar cair.
Desde a realidade do país, a situaçom actual nom é só insustentável: é o resultado direto de manter um modelo que nom responde às necessidades reais da Galiza. Um modelo que nom fixa populaçom no rural, que nom aposta pola gestom activa do território e que nom reforça os serviços públicos essenciais para a protecçom da gente.
O problema dos incêndios nom é só um problema de lumes. É um problema político de primeira ordem. E por isso, o que arde em cada campanha nom é apenas monte, é também a evidência de que as políticas atuais nom estám a funcionar. O Partido Popular e a Xunta da Galiza nom podem seguir apresentando cada verám como umha batalha contra as condiçons naturais, quando o que há por detrás é umha continuidade política que nom altera as causas do problema.
A poucos meses do verám, o diagnóstico é claro. O que ardeu em abril foi o início. E se o território segue igual, o final também será o mesmo.
Galiza encara um novo verám de risco alto, com um modelo que já demonstrou as suas limitaçons e sem mudanças de fundo à vista. Nom há sinais de correcçom, nom há transformaçons estruturais, nom há umha ruptura com o que nos trouxe até aqui. E quando o lume volte, como todo indica que voltará, nom será umha surpresa. Será a consequência.
